A mais recente História de Portugal, coordenada por Rui Ramos, já está disponível na biblioteca escolar Gabriel Pereira. O Jornal de Notícias publicou recentemente uma entrevista ao autor que reproduzimos de seguida com a devida vénia.
Que dificuldades sentiu ao fazer esta obra?Uma foi as obras deste tipo de história (uma síntese interpretativa) serem muito antigas. É a primeira que sai em quase 30 anos. Depois, a investigação em História é imensa e variada, mas dispersa e de difícil acesso. Recolher tudo isso, ler e digerir uma montanha de informação antes de a resumir, não foi nada fácil. E também falta investigação à história recente: sobre o 25 de Abril, por exemplo, há muitas memórias e testemunhos, mas escasseiam os trabalhos académicos.
Abre o capítulo sobre o 25 de Abril com uma frase de um colunista inglês. Corrobora-a?
É uma citação curiosa por ser alguém de fora a quem disseram que a ditadura era o tipo de regime que melhor se adequava ao país , mas afinal ninguém o defendeu: "Caiu nalgumas horas um regime de quase meio século bem adaptado a um país rural e católico como se nunca tivesse existido". E ele também diz que irá suceder o mesmo quando o comunismo cair nos países de Leste e 15 anos depois aconteceu. A revolução mostrou que o país já não era rural nem católico, estava em convulsão de costumes e tinha mudado imenso nos anos 60, pelo que o 25 de Abril é a prova do fracasso do regime e também das oposições que não tinham uma proposta para este tipo de país.
Nega que tenha sido uma revolução popular.É preciso distinguir o golpe e da revolução. O golpe vem de dentro do regime em que os protagonistas não são só os capitães, mas também os generais: Spínola e Costa Gomes e, por isso, não houve resistência. Marcello Caetano nunca teria entregue o Poder a Melo Antunes ou a Vasco Gonçalves. Fê-lo porque Spínola estava por detrás do golpe. O povo? Onde estava o povo? Ficou a ver o que acontecia e só aderiu quando percebeu que o regime tinha caído.
Foi uma sucessão de acasos felizes?
É um mistério perceber como certas forças da Oposição chegam ao Poder e conseguem até dominar a sociedade e o Estado quando tinham uma base de partida muito restrita. É tudo de uma série de factores: a crise do petróleo e do governo dos EUA, por causa do Vietname e do caso Watergate criou um vazio de Poder no Ocidente, está na moda o socialismo de Leste e existe o problema do Ultramar que o Estado Novo não resolve e para o qual, quem toma o Poder a seguir também não tem uma solução.
Porque diz que "o esquerdismo foi útil por só à esquerda a retirada ser virtuosa"?
Ao dar-se o golpe tornou-se impossível continuar a guerra. O esquerdismo que é uma expressão da época, dá uma ideia do activismo muito determinado e até sectário e fanático que existia e é a melhor forma de descrever o que era: não era marxismo - não havia sequer um pensamento formado , era mais vago - era uma atitude. No caso do Ultramar defendiam a sua entrega imediata aos movimentos de libertação, sem lhes passar pela cabeça o que significava entregar territórios habitados a grupos armados, alguns dos quais só sabiam guerrear. Até não esquerdistas enveredaram por essa via, porque a única maneira de acabar com a guerra era aceitar as condições dos que a faziam.
A descolonização era a única saída?
Já não tínhamos condições de negociar e através da negociação militar fez-se o trespasse dos territórios. Eles sabem que haverá retaliações para quem fica, que será a democracia para os portugueses e a ditadura para os africanos e a única forma de isto parecer aceitável era a solidariedade esquerdista. O esquerdismo foi uma caução da retirada. E não estou a julgar a posteriori. Percebo que as circunstâncias eram muito complicadas.
Com que ideia ficou de Spínola?De alguém que tem uma ideia para o país, mantendo as províncias ultramarinas e que tenta resistir até ao fim. É uma figura quase quixotesca, que nunca se resigna nem se conforma. Ao contrário de Costa Gomes, foi sempre confrontacional. Ele sabia o que implicava uma ruptura político-militar. Porque, no fundo, toda a gente foi ultrapassada pelos acontecimentos. Cunhal disse em Julho de 1974 a militantes que só depois das eleições se pode falar de nacionalizações e de reforma agrária e se os portugueses votassem nesse sentido. E disse também: não façam greves, é preciso segurar a economia do país.
Nunca houve um risco real de golpe de Estado patrocinado por Moscovo ou Washington?
Não digo que quando Álvaro Cunhal fala de um perigo igual ao Chile ou Mário Soares da invasão de Praga, não acreditassem nisso, mas analisando as circunstâncias vê-se que a probabilidade de isso acontecer era extremamente reduzida. Cunhal não contava com Moscovo e não também não havia nenhum Pinochet no país.
Fala de mil detidos contrários à Revolução e de 128 presos políticos em Caxias e Peniche.
Sim, os chamados reaccionários presos por unidades militares e sem contar com as 800 pessoas presas em Lisboa pela Polícia Militar, espancadas e torturadas nos quartéis da Ajuda, segundo a comissão de averiguações criada pelo do Conselho da Revolução. Foram presos, as contas bancárias congeladas e soltos em 1976 sem terem sabido porque estiveram presas.
É inédita esta visão abragente dos factos?
Pode ver-se no Estado Novo só as barragens, o desenvolvimento do país, as finanças equilibradas e ignorar a Pide, a tortura, os presos políticos e a censura. Acontece o mesmo com o 25 de Abril: a festa, a liberdade, os cravos, as pessoas na rua, e quem foi preso por ter opinião diferente? E quem não pode escrever ou publicar? Eu demarco a diferença entre um regime onde a prisão política é oficial e sistemática e uma situação revolucionária, um pouco caótica, mas não se pode por uma pala no olho e ver só o que nos convém.
Mostra o lado negro da Revolução.Tal como a ditadura foi boa para uns e má para outros, a Revolução também o foi. A Revolução também foi má, velhaca, opressiva, mesquinha, como o Estado Novo tinha sido. Mas os que fizeram o 25 de Abril tinham verdadeiramente como objectivo estabelecer uma democracia pluralista. Prometeram-no e conseguiram-no nas eleições de Abril de 1975, as primeiras livres e por sufrágio universal. Essa é a grande obra do MFA e é um dos grandes momentos da nossa História.
Diz que a democracia se consolida através da celebração anual do 25 de Abril e da memória negativa do Estado Novo. E como interpreta a elegia a Salazar como o maior português?
Dá nisso. Assim como no Estado Novo as pessoas sabiam que o que os jornais não diziam a verdade e quando se nota que estão a tentar fazer isso, reagem. Diabolizar é sempre perigoso. O Estado Novo diabolizou o comunismo que tanta curiosidade suscitou em 1974-75 e agora é o mesmo com o salazarismo. O melhor é conhecer que não é aderir nem desculpabilizar.
http://jn.sapo.pt/Domingo/Interior.aspx?content_id=1427187 [disponível em 6.3.2010]


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